INTELIGÊNCIAS COLETIVAS
Pierre Levy
Pierre Levy
Esse é um movimento que se iniciou no domínio científico,
pois foi a comunidade científica que inventou a
Internet e que se serviu primeiro dela para trocas de idéias, cooperações etc.
Ela é uma das mais antigas praticantes da inteligência coletiva com suas
jornadas científicas, seminários, colóquios onde cada um comenta o que faz e
tentam construir juntos um saber comum, ao mesmo tempo que têm liberdade de
propor teorias diferentes. Não é, pois, de se espantar que ela tenha inventado
a Internet, o correio eletrônico, os fóruns de discussão e esse imenso
hipertexto da web que, no fundo, reproduz a prática
muito antiga da citação, da nota de rodapé, da bibliografia etc.
Não é só na
comunidade científica que se pratica a inteligência coletiva, mas também – e
cada vez mais – no mundo dos negócios, porque existe a necessidade de empregar
pessoas capazes de tomar iniciativas, de coordenar, de
inventar novas soluções, de resolver problemas e de fazer tudo isso
coletivamente, de forma organizada. Evidentemente, essas novas ferramentas de
comunicação são as mais adequadas para isso e há todo um movimento no “management” contemporâneo que visa a desenvolver práticas
de inteligência coletiva.
Há, também,
outros campos, por exemplo, o da política ou, para falar de uma maneira mais
ampla, o da cidadania. Hoje, muitas comunidades locais, muitos governos de
vários países estão tentando aprofundar os processos de consulta da população,
os processos de democracia deliberativa através de fóruns de discussão sobre
questões de política local, permitindo à população deliberar sobre assuntos que
lhe concernem diretamente. Há, portanto, um campo geral da ciberdemocracia..
Há mais de
dez anos pesquisadores em ciências sociais vêm refletindo sobre o vínculo
social, o capital social e percebemos que uma das condições mais importantes
para o desenvolvimento humano são as relações, os vínculos de trocas, de
serviços, de conhecimento, de sociabilidade. Isso pode ocorrer na economia, no
lazer, no jogo, em trinta e cinco mil coisas diferentes. Sempre se soube disso,
mas estamos percebendo hoje a importância da relação social organizada,
inventiva e viva. Quando se diz organizada não se quer dizer por um centro, uma
instância superior, mas auto-organizada, espontânea, de alguma forma.
Assim,
listar os campos onde se descobre que a cooperação e, mais particularmente, a
troca de idéias, a cooperação intelectual é algo importante para o
desenvolvimento cultural e social. A Internet é uma das ferramentas para esse
desenvolvimento e é por isso que ela tem, em todo o mundo, um tal sucesso.
Pode-se argumentar que apenas 7% dos brasileiros estão conectados
à Internet. Evidentemente, há consciência disso. No entanto, é
preciso lembrar que isso é um processo histórico, uma tendência que deve ser
avaliada em sua dimensão correta. Muitas séculos se
passaram desde a invenção do alfabeto até a construção de uma civilização da
escrita. Quando se inventou o alfabeto, por volta do ano 1.000 a.C., não foi
imediatamente que as pessoas aprenderam a ler e escrever. Há dez anos mais ou
menos que a maioria da população mundial - a maioria e não a totalidade – sabe
ler e escrever. Foram necessários, portanto, três mil anos para se chegar a
essa situação. A web existe há menos de dez anos,
portanto não podemos ser impacientes e nos escandalizarmos com o fato de que a
maioria da população não está conectada. O que é preciso observar é a
velocidade com que a curva de conexões aumenta, e isso já é notável.
Nós
devemos, cada um a nosso modo, fazer com que o maior número de pessoas possível
possam ter acesso a esse novo recurso fundamental da cultura que é a
comunicação mundial interativa. Aqueles que podem ter acesso sabem até que
ponto isso é um recurso para o desenvolvimento pessoal, para estreitar laços
sociais, para aprender coisas, para aumentar seu grau de liberdade, pois temos
muito mais liberdade de expressão do que podíamos ter na época em que havia
somente os jornais, o rádio, a televisão etc.
Com essa
apresentação, pudemos ter uma noção de inteligência coletiva.
Inicialmente,
podemos tomá-la no sentido simples de partilha das funções cognitivas, pois: o
que é inteligência, finalmente? É a memória, o aprendizado, a percepção, as
funções cognitivas. A partir do momento em que essas funções são aumentadas e
transformadas por sistemas técnicos - algo de objetivo, externo ao organismo
humano – elas poderão ser mais facilmente partilhadas. Melhor dizendo, se
alguma coisa é escrita, ela já não faz parte da memória pessoal, mas faz parte
da memória da comunidade à qual pertencemos, e que mantém seus escritos. Hoje a
escrita é alguma coisa que não está mais só no suporte papel, mas que está no
suporte eletrônico e que, por isso, se torna mais acessível,
flexível e, sobretudo, mais compartilhável.
Estamos falando da memória, mas poderíamos falar da
percepção. Com a televisão podemos ver à distância; com o telefone podemos
escutar à distância. Com a Internet não apenas essas
coisas são possíveis, mas a um nível de precisão muito maior. Por exemplo, com
as “webcam” podemos ver exatamente onde queremos
ver. Com os novos sistemas de informática de imagem digitalizada, que permitem
transformar dados complexos em representações visuais facilmente
compreensíveis, há uma nova abertura no campo da percepção que, na verdade, é a
percepção de fenômenos complexos, que é tão cara a Edgar Morin.
Podemos
comparar a nossa época ao século XVII, época em que se inventou o microscópio e
o telescópio, onde se descobriu todo um universo do “infinitamente pequeno” e
todo um universo do “infinitamente grande”. Hoje
estamos descobrindo o universo do “infinitamente complexo”
porque temos um meio de representá-lo, de interagir com esse universo
justamente por causa da tecnologia intelectual que é a informática. É preciso
ver, portanto, que se trata de uma abertura do campo do conhecimento possível
porque há também uma abertura do campo de percepção, do campo do raciocínio
possível.
Entretanto,
a inteligência coletiva não é um tema puramente cognitivo. Só pode existir
desenvolvimento da inteligência coletiva se houver cooperação competitiva ou
competição cooperativa. Retomando o exemplo da comunidade científica, podemos
dizer que trata-se de um jogo cooperativo, já que
acumula-se conhecimentos, há um progresso do saber, etc.. Mas isso só é um
processo cooperativo e plenamente cooperativo porque também é um processo
competitivo. Se não houvesse a liberdade de propor teorias opostas àquelas que
são admitidas, evidentemente o progresso nos conhecimentos seria muito menor.
Portanto, é porque existe essa possibilidade de competição que existe a
cooperação. Há, pois, dois aspectos: o aspecto da liberdade – que é o aspecto
competição – e o aspecto do vínculo social, da amizade – que é o aspecto
cooperação. É preciso acostumar-se a pensar nos dois ao mesmo tempo. É a partir
do equilíbrio entre competição e cooperação que nasce a inteligência coletiva.
Evidentemente não é a guerra de todos contra todos, nem tampouco uma cooperação
obrigatória, regulada, que proibiria as diferenças de idéias, as lutas, os
conflitos que são naturais e que, sobretudo, permitem ao novo se expressar.
Observemos
o comportamento de uma multidão. Uma multidão é menos inteligente do que um
indivíduo dessa multidão. O fato de diversos indivíduos estarem reunidos não
ajuda muito. Se observarmos uma administração muito burocrática,
centralizadora, com uma hierarquia rígida, vamos dizer que essa administração é
provavelmente mais inteligente do que uma multidão porque ela pode fazer muitas
operações e chegar a um certo resultado, mas ela não equivale à multiplicação
de todas as inteligências das pessoas que participam dessa hierarquia
burocrática. Provavelmente essa hierarquia burocrática é menos inteligente do
que o grupo de dirigentes. O grupo de dirigentes toma decisões e as decisões
são aplicadas de forma cada vez pior à medida em que
se desce na hierarquia. Não se permite, obviamente, que a base tome decisões.
Há muitas
formas de organização e o desafio é inventarmos todos juntos
formas de organização que não sejam nem anárquicas – onde não haveria
nenhuma forma de cooperação – nem demasiadamente rígidas, mas sim as que
permitam otimizar a capacidade de invenção das pessoas, suas competências, suas
experiências, suas memórias.
O
desenvolvimento de uma ciência da inteligência coletiva é o melhor caminho para se chegar a
uma cultura da inteligência coletiva, ou seja, com a constituição de uma vasta
rede de pesquisas a perspectiva é avançar em direção a uma transformação
cultural que caminhe nesse sentido. Uma transformação e não uma revolução, que
deve ser feita tranquilamente, sem forçar nada, a
partir da conscientização de cada um. Porque uma cultura não é definida por um
pequeno grupo de dirigentes ou de pensadores, é algo que é partilhado pelo
conjunto de uma população. Ela é produzida de forma espontânea por todas as
pessoas que participam dessa cultura. É algo que vai levar tempo,
necessariamente, mas que depende de cada um de nós. Não devemos nos aborrecer
pelo fato de ainda não estarmos em uma situação perfeita de inteligência
coletiva. Cada um deve se perguntar o que pode fazer para propagar novas formas
de fazer. E a resposta é: dar o exemplo.
Vamos,
então, esboçar
uma perspectiva um pouco mais ampla, mais extensa, que é aquela do ecossistema
de todos os conhecimentos, de todas as idéias, de todas as práticas humanas. Há
séculos que se fala da humanidade em geral, mas falava-se de uma humanidade
abstrata, concebida na sua universalidade. Hoje, no entanto, desde o
desenvolvimento do ciberespaço, podemos observar ou mergulhar na inteligência
coletiva da humanidade quando navegamos na web,
quando participamos de um fórum de discussão em uma língua e depois de outro em
outra língua etc. De repente, esse ecossistema das idéias humanas torna-se
palpável e percebemos que participamos dele, que nós é que o tornamos vivo.
Esse ecossistema emerge da atividade, do pensamento, da comunicação, da ação
dos seres humanos e creio que não seria mal, de vez em quando, elevarmo-nos a
esse nível de generalidade e considerarmos que todos nós fazemos viver o mundo
das idéias, que ele não existiria sem nós. Não seríamos humanos vivendo em uma
cultura se essas idéias científicas, religiosas, políticas, artísticas não
existissem.
Vamos situar um pouco esse mundo das idéias na
história da evolução. Podemos dizer que há um primeiro nível do “vivo” que é a
vida orgânica, a vida dos corpos, dos micróbios, das plantas e esse primeiro
nível da evolução da vida está baseado em um código digital, o primeiro código
digital, que é o DNA. Há, portanto uma dialética entre as mutações que ocorrem
no código digital, ou seja, nos genes e sua repercussão sobre os fenótipos, ou seja, sobre os corpos das plantas, dos
micróbios etc. E há uma seleção natural não só dos corpos, mas dos genes que
são responsáveis por esses corpos e assim por diante. E é assim que podemos
explicar, grosseiramente, o ciclo da evolução.
Existe um
segundo estágio da evolução do mundo vivo que está relacionado ao surgimento,
no decorrer da evolução do estágio precedente, dos sistemas nervosos, ou seja,
dos animais. Nos animais há uma interação entre as percepções e as ações e essa
interação passa pelo sistema nervoso. É graças a ele que o mundo sensível
aparece. Se não houvesse sistema nervoso não haveria som, não haveria imagem,
formas, cor, não haveria cheiro nem sabor. O mundo sensível existe porque o
sistema nervoso existe. Temos aqui, pois, o aparecimento de um código digital,
que é o código de comunicação entre os neurônios: a corrente passa ou a
corrente não passa. E é verdadeiramente um código digital porque ele é o mesmo,
quer se trate de codificar emoções, imagens, sons etc. São sempre impulsos
elétricos entre neurônios.
A um
segundo universo de formas, não somente orgânicas, mas sensíveis, com
animalidade e humanidade temos um terceiro universo de forma que, naturalmente,
repousa sobre os dois precedentes, mas são formas que não existiam
no mundo animal. Por exemplo, números, deuses, constituições políticas,
peças de teatro. E tudo isso só se tornou possível porque um terceiro código
apareceu, que é o da linguagem. Por que a linguagem tornou possível o mundo das
idéias? Provavelmente porque, com uma grande simplicidade fonética (há trinta
fonemas na maioria das línguas) podemos produzir seqüências
diferentes, uma infinidade de seqüências que possuem
uma capacidade de engendrar uma infinidade de significados diferentes. E nós, como espécie humana, inventamos uma
forma de inteligência coletiva que não existia nos animais. Porque
evidentemente a inteligência coletiva não começa com a espécie humana. Todo
mundo sabe que o formigueiro é mais inteligente que a formiga e que a colmeia é mais inteligente do que a abelha; até um grupo de
zebras é mais inteligente do que a própria zebra. Por isso elas vivem em grupo.
Mas nós, pela linguagem, abrimos um universo de comunicação completamente
diferente. Uma das melhores ilustrações dessas diferenças é que com a
humanidade começa um tipo de evolução que não existia antes, que é a evolução
cultural. Os leões se comportam da mesma maneira desde que existem leões,
enquanto que os seres humanos modificam seu comportamento. Houve uma evolução
técnica, religiosa, moral e política. Há uma evolução dos conhecimentos, uma
evolução científica etc. Portanto, é porque vivemos no universo da linguagem,
que conseguimos formar uma inteligência coletiva de um tipo mais poderoso do
que aquela das espécies animais, que somos o que somos.
Vamos relacionar o que foi dito dizendo com as
experiências fundamentais que todos nós temos. É porque falamos que todos nós praticamos
uma forma de inteligência coletiva que é capaz de aperfeiçoamento constante. E
o que quer dizer falar? Sabemos que os animais se comunicam entre si. A
diferença é que a linguagem nos permite fazer três coisas que os animais não
podem fazer: primeiro, fazer perguntas. Os animais não fazem perguntas. Isso
quer dizer que há alguma coisa que não sabemos. Nós encontramos nossa própria
ignorância, um vazio no espírito, uma carência, um
branco. E nesse momento nós fazemos perguntas. Não estou falando de perguntas
retóricas, falo de verdadeiras perguntas. Fazemos uma pergunta e se não temos a
resposta somos obrigados a buscá-la no ambiente ou buscá-la com outra pessoa.
Essa é uma abertura fantástica: o fato de percebermos nosso próprio limite. O
animal não sabe que é limitado, nós sabemos. É
justamente porque sabemos que somos limitados que somos ilimitados.
A segunda
particularidade da linguagem humana é o fato de contarmos histórias. Os animais
não contam histórias e é porque contamos histórias que temos uma concepção do
tempo. Organizamos nosso pensamento em antes, depois, antes, depois, antes,
depois, causa, efeito, causa etc, atores que interagem entre si e que, ao
fazerem isso, transformam uma situação. E nesse momento podemos inventar uma
medida de tempo, podemos aprofundar a noção de causalidade e, sobretudo,
vivemos na significação, porque, para nós, que as coisas tenham sentido
equivale a contar uma história, fazer um relato. No início, os relatos mais
importantes da humanidade eram as lendas, as fábulas. Hoje, continuamos a
contar histórias. Dizemos que não são lendas; não importa. Não somos capazes de
viver se não damos sentido àquilo que vivemos, ou seja, ser
não contamos história. Evidentemente, não contamos sempre a mesma
história, mas produzimos sentido a partir disso. E por
que a inteligência coletiva? Porque as histórias são transmitidas. Contamos uma
história a alguém e essa pessoa guarda o que lhe foi contado. Quando nos explicamos aos outros estamos
contando a nossa história, a história das coisas que nos interessam. É uma
forma de vínculo entre nós, extremamente importante. E, finalmente, já que existe laços entre nós, temos o diálogo.
Os animais emitem sinais entre si. Quando a
zebra vê, pelo canto do olho, o leão aproximar-se na savana, ela começa a
tremer e foge, imediatamente. As outras zebras entendem e começam a fugir
também. O sinal foi transmitido, mas isso é um diálogo? Não. No diálogo nós
participamos da interioridade do outro. Nós nos apercebemos que existe um outro
que não somos nós. E, evidentemente, isso cria um vínculo entre nós que é muito
mais profundo que aquele que existe nos animais.
Quando
fazemos perguntas uns aos outros inicia-se um diálogo
e, freqüentemente, respondemos às perguntas com histórias. Isso é o motor da
produção do universo da significação, que é a cultura. E é algo muito dinâmico,
que nasce com as perguntas, com os diálogos, com as histórias que contamos etc.
Fazendo tudo isso nós fabricamos ferramentas, inventamos instituições sociais e
políticas, começamos a fazer música e a dançar, e todo o universo começa a se
desenvolver.
O mundo da
significação, no qual se desenvolve a inteligência coletiva, é organizado em
torno de três pólos, sem os quais não haveria significação. O que vai ser
exposto aqui não foi inventado
agora. É algo que foi dito há muito tempo, por Aristóteles, por exemplo, e que
foi repetido por todos os filósofos medievais, redito pelos linguistas
e semiólogos contemporâneos. Não é uma teoria de
Pierre Levy, é algo já muito conhecido, mas sobre o qual não se reflete
suficientemente. Onde nós, seres humanos, vivemos? Evidentemente, vivemos no
mundo físico, mas as pedras também vivem nele. O que existe de original no
nosso modo de existir é que vivemos na significação e as pedras não. E como se
organiza essa significação? É uma tensão viva entre três pólos.
Em primeiro
lugar, o pólo do signo. Se
dissermos “computador”, é
o som “computador” que é o signo. Há o referente, aquilo do qual estamos
falando, a “coisa”. E depois há o espírito, para quem o “computador” significa
a “coisa”. Há, portanto, um espírito para colocar um signo em relação com
aquilo que esse signo representa, porque se não houvesse espírito não haveria
nem mesmo a noção de representação. Portanto, esse universo da significação é
forçosamente organizado nesse triângulo. Uma idéia é um conjunto de signos que
estão em relação uns com os outros. Uma idéia é como um ser vivo que é capaz de
se reproduzir, passando de um espírito para outro. Cada vez que uma idéia é
concebida, é pensada por um espírito, é como se a idéia se reproduzisse, de
certa forma. Quando ela está escrita em algum lugar, ou quando ela está
encarnada em uma estrutura material qualquer, podemos dizer
que ela é virtual. A partir do momento em que ela na experiência de alguém ela
é atualizada e é como se houvesse uma reprodução. Há idéias que se reproduzem
bem, outras não tanto, e há espécies de idéias que morrem, simplesmente. De um
modo geral, toda evolução cultural é a história da evolução das idéias e de sua
relação com as populações humanas, que as nutrem. O ambiente no qual a idéia
vive é triplo, o que corresponde aos três pólos do significado. A idéia tem
relação com o ecossistema dos signos que, hoje, podemos talvez representar pela
web, ou seja, pela Internet. A idéia é também uma
ação sobre a natureza, sobre a realidade física ou biológica. Por exemplo, se alguma coisa faz
vocês rirem ou chorarem, algo está se transformando na matéria porque vocês
receberam a idéia. Se tivermos
uma idéia científica ou técnica, ela pode ter conseqüências práticas físicas, naturais.
A espécie
humana é aquela que mais transformou o ambiente real em comparação com as
outras espécies de mamíferos que conhecemos. Possuímos tal poder de
transformação porque temos idéias.
Finalmente, há uma outra parte do
ambiente onde a idéia intervém, que é a relação entre nós e a sociedade. Cada
idéia é um movimento no jogo das relações políticas, afetivas, éticas, jurídicas,
econômicas etc. Todas essas idéias vivem em sociedade. De uma certa maneira a
inteligência coletiva é um ecossistema de todas essas idéias que nós fazemos
viver, porque nós as nutrimos e as reproduzimos. Isso não quer dizer que não
haja uma noção de responsabilidade. A responsabilidade existe; somos livres
para reproduzir ou não uma idéia que circula em nosso ambiente.
Bloco 4 –
Ecologia de idéias
Uma
população humana vive em simbiose com um ecossistema de idéias. Se esse
ecossistema é favorável à população que o abriga e nutre, essa população vai
viver melhor do que aquelas que mantêm idéias desfavoráveis a ela. Se certas
populações não ajudam as idéias a se reproduzirem, então essas idéias não serão
favoráveis àquelas populações. Há, portanto, uma relação bidirecional, na qual
não há nenhum elemento fundador ou fundamental. É um sistema de
auto-referência, de auto-organização. O leme da evolução não está nas mãos das
idéias nem tampouco nas mãos da população, mas, sim, na relação entre as duas.
Vamos mais uma vez utilizar a abordagem de
três pólos da significação para continuar a refletir sobre essa noção de
inteligência coletiva. Podemos distinguir, no desenvolvimento cultural, três
direções principais que correspondem aos três pólos de significação. Há uma inteligência técnica que,
evidentemente, é própria da espécie humana porque fomos nós que desenvolvemos a
maioria dos instrumentos e continuamos sempre a inventar ferramentas.
Desenvolvemos armas, desenvolvemos a arquitetura, a agricultura, a indústria, a
engenharia, a tecnologia etc., e portanto, há toda uma forma de
pensamento coletivo que é técnico. Mas há também outra forma de pensamento, que
é o abstrato, o pensamento conceitual, formal, que não trata da materialidade
física mas incide sobre os signos. São as matemáticas,
as artes, a literatura, a comunicação, a semiótica. É muito difícil separar
esses dois tipos de pensamento porque as grandes civilizações técnicas são
também civilizações que possuem uma escrita, que desenvolveram as artes, as
ciências abstratas etc. Não podemos ter um sem outro.
Há, ainda,
um terceiro pólo, que é um pólo relacional, aquele das relações entre os seres
humanos, ou o pólo político, religioso, que concerne à regulação da
agressividade entre as pessoas. É isso que eu chamo de inteligência emocional.
Se nós
devemos refletir sobre o que é inteligência coletiva é preciso conceber que ela
se desenvolve quase que necessariamente nessas três dimensões, que não podem
ser separadas, pois são as três dimensões da significação. Então podemos entender
quando Edgar Morin diz que se pensamos uma coisa
independentemente das outras, estamos condenados a não entender o que está em
jogo.
Talvez, um
dos fatores mais importantes na evolução cultural é a forma como as idéias se
reproduzem. No início da história da humanidade as idéias eram transmitidas
oralmente e se reproduziam de geração em geração. As idéias também eram
transmitidas pelos rituais conjuntos, pelas ferramentas, por tudo que podia
constituir uma memória. O essencial da memória era concluído nas lendas, que
eram transmitidas no seio de tribo de geração em geração. Com o aparecimento da
escrita aparece também uma espécie de memória autônoma das
idéias, que podem durar no tempo independentemente do sopro vivo de uma pessoa
que está tentando transmitir essa idéia. Hoje, podemos ler Platão, mesmo
que ele tenha escrito algo há dois mil e quinhentos anos. Os arqueólogos podem
decifrar o que os egípcios haviam gravado em hieróglifos nos templos. A escrita
não só cria um vínculo entre gerações maiores mas
permite um acúmulo de conhecimentos no interior de uma sociedade que é também
muito maior e permite, além disso, uma organização da sociedade muito mais
complexa do que uma sociedade sem escrita. O Estado, por exemplo, como forma
política, seria muito menos desenvolvido se não houvesse a escrita. A ciência
seria impensável, as religiões como as conhecemos também. Os meios de
comunicação são como órgãos de reprodução ou como a memória das idéias. Quanto
mais esses órgãos de comunicação se aperfeiçoam, mais essa memória se torna vasta e mais o ecossistema das idéias se transforma, a
inteligência coletiva aumenta, se complexifica e
evolui com rapidez.
Com a
invenção da imprensa chega-se a uma situação ainda mais biológica, pois as
formas culturais são quase capazes de reproduzirem-se por si mesmas. Podemos ir
mais longe ainda se pensarmos no telefone, no cinema, nas mídias hertzianas. E finalmente hoje nós temos um ecossistema de idéias
no qual, quando uma representação se encontra em algum lugar do ciberespaço,
ela está ao mesmo tempo em todo o lugar da rede. Portanto, é uma situação de ubiqüidade, o que, evidentemente, nunca aconteceu na
história da humanidade. E nós só conhecemos essa situação há dez ou quinze
anos. É algo muito novo e é muito difícil dizer a que civilização essa nova
situação, esse novo ambiente ecossistêmico da cultura vai nos levar. Há essa
noção de ubiqüidade e também a noção de interconexão,
pelo menos de interconexão possível de todas as idéias, com os hipertextos da web, com o correio eletrônico e “links”
no e-mail. Isso oferece a possibilidade de mostrar coisas em tempo real na
escala planetária, o que é totalmente novo na história da cultura. Vocês podem imaginar
o que isso representa para a inteligência coletiva.
Finalmente,
há essa capacidade autônoma de ação dos signos. Poderíamos falar de robôs, de
inteligência artificial, de vida artificial etc., mas estou me referindo a algo
mais comum, que todos nós conhecemos, que é o software. São fragmentos de
escrita capazes de agir uns sobre os outros, ou de fazer agir os mecanismos que
acionam robôs, por exemplo, e que vivem no ciberespaço. Creio que é muito
importante considerar essa nova situação da vida cultural na qual muitas coisas
surpreendentes podem acontecer e na qual creio que devemos apreender as
possibilidades mais emancipadoras, porque não é
garantido que as melhores coisas aconteçam. Isso depende de nós. É preciso
entender que todas essas coisas são possíveis e que elas dependem não só de
nossa ação individual, mas da forma como vamos nos organizar para que as
melhores coisas aconteçam.
Para
refletirmos um
pouco mais sobre essa noção de idéia, podemos nos deter sobre o que muitas pessoas
chamam de economia da informação, economia do conhecimento. Como podemos articular essa noção de economia
do conhecimento com a perspectiva da inteligência coletiva? Vamos adotar uma
perspectiva que é clássica em economia, que consiste em distinguir o capital do
trabalho. Vamos definir antes o que é capital. Qual é o significado etmológico de capital? Etmologicamente,
capital significa cabeças de gado. Capital vem de caput, cabeça em latim.
Quando se dizia, na época bíblica, que Abraão tinha um capital, isso
significava que ele possuía um rebanho. E a principal particularidade do
capital é que ele é capaz de se reproduzir. O rebanho é capaz de se reproduzir,
de produzir filhotes.
Antes mesmo de termos rebanhos, a primeira
coisa que consideramos capital foram as mulheres. Mas
se estudarmos o
sistema elementar de parentesco de Lévi- Strauss,
veremos que as mulheres nas sociedades arcaicas são consideradas como a riqueza
principal e a razão disso, provavelmente, é que são as mulheres que fazem as
crianças, que as reproduzem, pelo menos numa primeira visão ingênua. Portanto,
o trabalho, naquela época, consistia na caça e na colheita para manter a fonte
da reprodução. Isso corresponde, aliás, à época da oralidade. Na época da
revolução neolítica, no momento em que se sistematiza a agricultura, a criação
de animais etc., a fonte principal da reprodução são os grãos e os rebanhos e o
trabalho principal será a criação de gado e a agricultura.
Com o
alfabeto, podemos dizer que a nova fonte de reprodução, que é capaz de ter
filhotes, é o dinheiro. Vocês podem perceber que vai ocorrendo um grau de
abstração suplementar , e é através do comércio que
somos capazes de fazer com que o dinheiro se reproduza e se multiplique. Temos,
então, um novo tipo de trabalho que se generaliza, o do artesão e o do
comerciante.
Na época da
imprensa, as instalações industriais e as máquinas tornam-se
a fonte de reprodução. A fábrica
reproduz mercadorias, como se fosse uma grande matriz. E notem bem, a primeira
máquina industrial que reproduziu mercadorias em série foi a
imprensa, ou seja, a primeira coisa que nós reproduzimos em série, de forma
industrial, foram as idéias. E depois fabricamos roupas, produtos mecânicos
etc.
Se
observarmos o desenvolvimento do rádio, da televisão, do disco veremos até que
ponto essa reprodução automática incide, ainda hoje, sobre mercadorias informacionais, imateriais. Antes o trabalho importante era
o do operário, o do engenheiro que constrói e mantém as máquinas. E hoje? Hoje,
é claro, as etapas anteriores não desapareceram. Por exemplo, a agricultura vai
existir, provavelmente, por muito tempo ainda. Mas é evidente que há cada vez
menos pessoas trabalhando na agricultura, porque temos meios industriais para
fazê-la de forma mais eficaz. Hoje, então, a fonte de riqueza, aquilo que é
capaz de reproduzir-se, o rebanho que dá o leite, a carne, a lã, são as idéias.
Quem são as pessoas mais ricas do mundo hoje? São as pessoas que têm a sua
fortuna baseada na propriedade intelectual: pessoas que trabalham com software,
certos artistas, pessoas que vivem da própria imagem, porque a imagem é uma
idéia. Não apenas idéias científicas, filosóficas, mas todo o tipo de idéias.
Pode ser música, um jogo de futebol, por exemplo.
Neste ultimo bloco vamos analisar essa
inteligência coletiva com conceitos econômicos, e sempre com aqueles três pólos
de significação. Começando pelo pólo físico, natural, temos o que se pode
chamar de capital técnico. Como exemplo, pensemos nesse nosso encontro. Para
que ele acontecesse precisamos de um prédio – isso ajuda muito – e também de um
microfone, um computador, uma tela. Há um ambiente físico que favorece nosso
trabalho. Um ambiente físico que é constituído, por exemplo, por estradas e
veículos, que permitem que as pessoas se encontrem, que as idéias circulem. O
capital técnico não é apenas
o ambiente físico. É também a mídia, os jornais, o
radio, a televisão, os livros e, finalmente, os computadores e a Internet que
são, hoje, a ponta mais avançada, mais eficaz, mais rápida na facilitação da
inteligência coletiva.
No pólo do
signo temos o que se pode chamar de capital cultural, ou seja, a memória
gravada da cultura. Por exemplo, as bibliotecas. Não estou falando aqui dos
prédios, dos livros, mas sim do conteúdo, da organização da estrutura abstrata
das idéias, que são visualizadas, são representadas por signos. Há, então, as
enciclopédias, os manuais de aprendizagem escolar e há hoje a web que, de certa forma, representa o conjunto dos
conhecimentos que são – ainda não completamente, o conjunto todo –
potencialmente, assintaticamente, os conhecimentos
produzidos pela humanidade. As novas idéias só poderão crescer em um solo que
absorveu, que contém toda a memória da humanidade e quanto mais memória esse
solo tiver mais idéias novas poderá fazer crescer.
Devemos ser a favor da cibercultura mas devemos fazer tábula rasa do
passado, esquecer a antiga cultura. Ela é um tesouro inestimável que devemos
conservar preciosamente, manter viva o mais tempo possível,
pois é sobre ela que podemos construir o novo. Portanto, o capital cultural é,
de certa maneira, a memória gravada da evolução cultural, que nos oferece uma
enorme quantidade de idéias, de inspiração até hoje.
Finalmente,
o terceiro pólo é o que se denomina capital social, que são
os vínculos entre os seres humanos e, particularmente, não apenas a
quantidade como a qualidade desses vínculos. Por exemplo: será que confiamos
uns nos outros? Ou somos honestos e sinceros ou então passamos nosso tempo a
imaginar estratagemas maquiavélicos para nos apunhalarmos
uns aos outros pelas costas. Se nos encontramos no primeiro caso, podemos
imaginar que a cooperação intelectual irá funcionar um pouco melhor. Se
praticamos o amor ao próximo
será muito mais fácil cooperar, ter idéias juntos e melhorar
nossa situação comum. Mas se nós passamos nosso tempo a nos mentir, a trairmos
nossa confiança, é provável que a cooperação intelectual não funcione muito
bem. Existe, pois, o clima que reina numa população e esse clima, diria eu, é
uma questão de cultura, depende do regime político, das leis etc. Podemos dizer
que, provavelmente, uma situação democrática é melhor que uma situação de
ditadura, porque há menos violência social, há mais liberdade de expressão, as
idéias podem circular mais livremente.
Portanto,
há toda essa noção de capital social e há o que poderemos chamar de capital
intelectual, ou seja, as idéias originais que foram produzidas pela população
em questão. Se tratam de idéias concretas, podem
ser traduzidas como propriedade intelectual mas, se
forem idéias abstratas são de propriedade comum, pois não pode haver
propriedade com relação às idéias abstratas. Mesmo as idéias concretas depois
de um certo tempo passam de propriedade intelectual privada para o domínio público.
Além das
idéias que são produzidas pela população existe também as
competências que dizem respeito a essas idéias que a população produz, o
ecossistema que ela nutre. Esses dois aspectos, as idéias originais e as
competências reais e vivas formam o capital intelectual, que
é alimentado pelo capital social, pelo cultural e pelo técnico que, por
sua vez são alimentados por ele.
Aqui foram representadas as relações entre
essas quatro dimensões da inteligência coletiva. Na base está tudo o que é
concreto, físico, material e que constitui as condições de possibilidade do
resto, porque se não temos as cidades, as ruas, os veículos, os meios de
comunicação, provavelmente a inteligência coletiva rapidamente encontrará
limites. É preciso que muitas pessoas estejam em relação intensa umas com as
outras para que cheguemos ao grau de cultura e civilização em que estamos, por
mais limitado que esse grau seja, pois existem piores. Esse capital técnico é a
condição do capital social. A Internet, por exemplo, nos permite estabelecer
relações uns com os outros, trocar e-mails, participar de fóruns de discussão
que, eventualmente, terminam em encontros reais. Esses novos meios de
comunicação oferecem condições ao desenvolvimento do capital social. Oferecem
condições, também, ao desenvolvimento do capital cultural, já que nunca houve
tanta informação ou conhecimento que foi publicado “on
line”. Além disso, essas informações e conhecimentos
têm “links”, hipertextos entre si. O capital técnico
oferece, pois, as condições de um aprimoramento do capital cultural.
Quando as
pessoas mantêm boas relações, relações freqüentes,
relações de confiança e dispõem de uma memória informacional, numerosa e bem
organizada, podemos afirmar que elas estão em boas condições de inventar coisas
novas e desenvolver sua competência pessoal. E essa inventividade ( que não é a relação das pessoas entre si, nem dos signos
entre si) é a relação das pessoas com as
idéias. Nós oferecemos nossa energia, nossa atenção, nossas emoções e em troca
as idéias nos
dão mais capital social, mais capital cultural e mais capital técnico.
Existe um
ciclo. Estou convicto de que há meios de compreender cada vez melhor como
funciona esse ciclo. Nós estamos apenas no início, a nova situação criada pelo
desenvolvimento do ciberespaço de repente nos abre um novo campo de pesquisa e
compreensão que, na verdade, é o campo de pesquisas sobre a inteligência
coletiva humana, sobre aquilo que é cooperação intelectual, sobre aquilo que é
construir juntos idéias e selecioná-las para o melhor
bem de todos. Mas estamos ainda no começo, é como se estivéssemos no início do
período neolítico: pegamos os grãos que encontramos no campo, os selecionamos e vamos
inventar o trigo. Então, ao invés das idéias crescerem desse jeito, vamos
tentar sistematizar o modo de fazer e vamos inventar “raças” de idéias, como inventou-se o milho, o trigo, o arroz, como se inventou o
cachorro, o cavalo, a galinha, o pato. Como faz o pato, que barulho ele faz ? Quando ensinamos às crianças como o pato faz, nós as
introduzimos em uma etapa muito importante no desenvolvimento da humanidade. É
a etapa do neolítico, quando inventou-se a escrita, a
criação de animais, a agricultura etc. Podemos imaginar que daqui a alguns
anos, talvez daqui a alguns séculos, teremos passado uma nova etapa comparável
àquela do neolítico, na qual teremos aprendido a criar e cultivar as idéias.
Quando eu (“Pierre Levy”) digo que sou favorável a uma ciência da inteligência
coletiva, é dessa ciência que estou falando, e espero que nós sejamos, cada vez
mais numerosos para nos engajarmos nessa empreitada.