Cândido Portinari

 

Carlos Gomes primeira gravura retratada por Portinari Carlos Gomes

CANDIDO PORTINARI
(Brodósqui, SP, 1903 - Rio de Janeiro, RJ, 1962)

Cronologia

1903 - Nasce em Brodósqui (Brodowski), perto de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no dia 13 de dezembro, filho de imigrantes toscanos que trabalhavam na lavoura de café. Cândido teria dez irmãos - seis mulheres e quatro homens;

1914 - Cria sua primeira gravura, um retrato do compositor Carlos Gomes, em carvão, copiando a imagem de uma carteira de cigarros;

1919 - Matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio. Em sérias dificuldades financeiras, Candinho chega a comer a gelatina química que recebe para misturar com as tintas;

1923 - Pinta "Baile na Roça", sua primeira tela de temática nacional. O quadro é recusado pelo salão oficial da Escola de Belas Artes, por fugir dos padrões acadêmicos da época;

1929 - Como prêmio do Salão Nacional de Belas Artes, que obteve com um retrato do amigo (poeta) Olegário Mariano, ganha uma bolsa de estudos em Paris. Ali, descobre Chagall, os muralistas mexicanos e sofre fortes influências do trabalho de Picasso;

1931 - Volta da França casado com a uruguaia Maria Victoria Martinelli;

1935 - Produz uma de suas obras mais famosas, "O Café" e inicia a que é considerada sua fase áurea (1935-1944);

1936 - Começa a dar aulas de pintura na Universidade do Distrito Federal;

1939 - Em 23 de janeiro nasce seu único filho, João Cândido. Cria três painéis para o pavilhão do Brasil na feira mundial de Nova York. Faz uma retrospectiva com 269 obras, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio;

1940 - O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) inaugura a exposição Portinari of Brazil

1942 - Cria painel para a Biblioteca do Congresso dos EUA;

1944 - Trabalha no polêmico altar da Igreja de São Francisco de Assis, em Belo Horizonte. Muito discutida pelos religiosos, tanto por suas formas arquitetônicas quanto pelo mural de São Francisco com o cachorro, a igreja só seria inaugurada em 1950;

1945 - Filia-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidata-se a deputado federal. Não consegue eleger-se;

1946 - Termina a as obras da Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte e faz o painel da sede da ONU, "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", com 10 por 14 metros. Expõe 84 obras em Paris. Candidata-se ao Senado pelo PCB, mas também não é eleito;

1950 - Representa o Brasil na Bienal de Veneza;

1953 - Inicia os painéis "Guerra" e "Paz", para a ONU, que terminaria em 1957;

1954 - Começa a manifestar sinais de envenenamento pelo chumbo contido nas tintas com que trabalha: sofre uma hemorragia intestinal e é internado;

1955-56 - Realiza 21 desenhos com lápis de cor para uma edição de Dom Quixote, de Cervantes. A técnica era uma alternativa tentada por Portinari para escapar à intoxicação pelas tintas;

1956 - Faz uma viagem a Israel, onde produz uma série de desenhos a caneta tinteiro;

1959 - Faz as ilustrações para uma edição francesa de "O Poder e a Glória", de Graham Greene;

1960 - Nasce sua neta Denise, e ele passa a pintar um quadro dela por mês, contrariando as recomendações médicas;

1962 - Morre no Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro, em conseqüência da progressiva intoxicação. Na época preparava material para uma exposição no palácio Real de Milão;

Café - 1935
Ainda que amplamente reconhecido no País, Portinari também encontrou críticos e conhecedores de arte dispostos a contestar a justiça da posição alcançada pelo artista. Acusado de desenvolver uma estética de tons fascistas por uns e de adotar um tom excessivamente engajado de "artista de esquerda" por outros ou de apenas reinterpretar o cubismo de Picasso sem desenvolver um estilo próprio, o pintor sobrevive aos seus possíveis pontos fracos, assim como ao próprio mito.
Na edição de 23 de junho de 1993 da revista Veja, o crítico de arte e editor da revista Novos Estudos (Cebrap), Rodrigo Naves, dedicou duas páginas à tese de que o artista não conseguia libertar-se de um estilo marcadamente sentimental e não resistia a apelar para as emoções derramadas, ainda que socialmente inócuas, com o intuito de obter ampla difusão e reconhecimento, por meio do que chama de "empatia áspera":
"Diante desses trabalhos é praticamente impossível evitar uma resposta de ordem sentimental. Eles provocam, de maneira irremediável, piedade, indignação, tristeza, sensações de desolação ou revolta. E aqui começam os problemas. Nada contra afetos e sentimentos. (...) A questão é que, por suas soluções pictóricas, o trabalho de Portinari tende a nos devolver sempre a um âmbito estritamente pessoal, em que confirmamos de modo reiterado nossas crenças e opiniões e mantemos uma intimidade imune aos desafios daquilo que é novo e imprevisto. E aí os sentimentos tendem ao sentimentalismo."
O polêmico ponto de vista prossegue, discutindo a eficácia do discurso político-visual de Portinari, um constante simpatizante da esquerda que se filiou ao PCB em 1945:
"(...) Essa violência que não violenta, que nos põe ao abrigo de seus efeitos - como se isso fosse possível - tem desdobramentos no interior das próprias pinturas de Portinari. Raramente suas figuras conseguem comunicar ao espaço de todo o quadro o drama que em princípio seria seu traço fundamental. E as constantes tentativas de dignificar os trabalhadores, dando-lhes um porte grandioso, terminam por encontrar pouca eficácia, uma vez que dificilmente aquela conformação se transmite para o restante dos quadros."
Habituado a ouvir e a ler interpretações como essas, e sem mergulhar profundamente nas discussões que cercam a obra de Portinari, o filho do artista, João Cândido, costuma afirmar, vendo nisso algo positivo e não como uma deficiência, que seu pai, sim, pintava os trabalhadores de uma forma digna e exuberante. A historiadora da arte Annateresa Fabris avalia que "os quadros de Portinari contrastam com as diretrizes ideológicas do Estado Novo". Segundo ela, "esse contraste se dá pela incidência do negro entre seus personagens, quando a raça negra era acusada de todos os males".
Perto da conclusão do seu artigo, Rodrigo Naves analisa a influência de Picasso sobre o trabalho de Portinari:
"(...) Essa ânsia de reconhecimento e obtenção de uma dimensão pública teve de pagar o seu preço. Basta ver o uso que ele fez do cubismo de Picasso. A bem dizer, Portinari diagramava Picasso. O pintor de Brodósqui lançava sobre figuras mais ou menos realistas uma trama decorativa que, à maneira de fachos de luz, as recortava e lhes conferia algum dinamismo, preservando contudo sua forma natural. Sem grande função estrutural, essa malha servia de camuflagem moderna a uma pintura de forte teor acadêmico."
 
Como lembrou o jornalista Antonio Gonçalves Filho, "críticos como Theon Spanudis viam em seus espantalhos, retirantes, favelados e lavradores pouco mais do que uma diluição do cubismo de Picasso. Spanudis costumava dizer que Portinari era um acadêmico arrependido."
A influência - inegável - de Picasso é vista por outros críticos como natural. "O veio realista de Portinari ganha reforço na Europa na é em que um Picasso neoclássico era o grande modelo", assinala Annateresa Fabris. "Portinari é moderno dentro das peculiaridades de modernismo no Brasil", que não teve sincronia com os movimentos estéticos do Velho Mundo.

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